Engenheira civil e especialista em proteção patrimonial, Monique Rodrighero Pontin integra imóveis, renda, seguros e planejamento em uma análise voltada à construção e preservação do patrimônio familiar
O imóvel ocupa papel relevante na construção patrimonial. Além da moradia, pode representar valorização, renda e diversificação. Para Monique Rodrighero Pontin, porém, a análise do patrimônio imobiliário precisa considerar também os compromissos que acompanham esses ativos: condomínio, IPTU, manutenção, financiamentos, despesas familiares e obrigações empresariais.
Famílias que financiam imóveis pelo Sistema Financeiro da Habitação, por exemplo, contratam obrigatoriamente o seguro de Morte e Invalidez Permanente (MIP), que quita o saldo devedor em caso de sinistro. As demais despesas, como custo de vida, educação, manutenção dos outros bens e continuidade da renda familiar, ficam fora dessa proteção.
Na avaliação da especialista, o planejamento patrimonial não deveria considerar apenas quanto uma família possui, mas também quem sustenta essa estrutura, quanto do patrimônio tem liquidez e por quanto tempo os compromissos poderiam continuar sendo cumpridos diante de uma interrupção de renda.
Patrimônio elevado não significa liquidez imediata
Uma família pode possuir imóveis, participações empresariais e investimentos de alto valor e, ainda assim, enfrentar pressão financeira em uma transição. Patrimônio e liquidez cumprem funções diferentes. Um imóvel pode valer milhões, mas sua transformação em dinheiro depende de mercado, comprador, negociação e tempo. Para Monique, essa diferença é central em qualquer estratégia de proteção patrimonial.
“Quando uma família precisa vender um imóvel por estratégia, ela escolhe o momento, o preço e as condições. Quando precisa vender para gerar liquidez em uma emergência ou sucessão, o patrimônio passa a ser negociado sob pressão. Planejamento também significa preservar o poder de escolha”, afirma.
Sucessão também é uma questão de liquidez
Na sucessão patrimonial, essa diferença se torna ainda mais evidente. Além da reorganização dos bens e responsabilidades, existem custos jurídicos, manutenção dos ativos, continuidade da família ou da empresa e tributação sobre a transmissão patrimonial. É nesse momento que patrimônio imobiliário, liquidez e proteção financeira deixam de ser assuntos separados.
A progressividade do ITCMD passou a ser uma exigência constitucional com a Emenda Constitucional 132/2023 e foi posteriormente regulamentada pela Lei Complementar 227/2026. O imposto integra essa equação e pode representar uma parcela relevante do custo da transmissão, especialmente para patrimônios concentrados em imóveis.
“A conversa sobre sucessão costuma começar em quanto será pago. Eu prefiro começar perguntando de onde sairão os recursos e como a família vai continuar funcionando durante essa transição”, diz a especialista em proteção patrimonial.
Três riscos, uma mesma estratégia
Segundo Monique, uma estrutura patrimonial consistente precisa observar três pontos: o risco patrimonial, quando há concentração excessiva em ativos com baixa liquidez; o risco de renda, quando a estrutura depende economicamente de uma ou poucas pessoas; e o risco sucessório, quando a transmissão exige liquidez e reorganização.
Em alguns casos, essa estratégia também pode incluir a diversificação da própria proteção. Soluções internacionais de seguro de vida, com cobertura em moeda estrangeira, podem ser avaliadas como uma camada adicional, de acordo com o perfil, os objetivos e a estrutura patrimonial de cada família.
É somente depois desse diagnóstico que entram os instrumentos de proteção. O seguro de vida pode contribuir para gerar liquidez e preservar a continuidade financeira, mas não substitui o planejamento sucessório. Ele é uma ferramenta dentro de uma estratégia mais ampla de proteção patrimonial. Segundo pesquisa Fenaprevi/Datafolha de 2024, 82% dos brasileiros acima de 18 anos não possuem seguro de vida, grupo que inclui famílias com patrimônio imobiliário expressivo.
Construir patrimônio é uma etapa. Garantir que ele atravesse imprevistos e gerações sem exigir a venda precipitada de ativos é outra. Na visão da especialista, planejamento e proteção patrimonial significam integrar imóveis, renda, liquidez, seguro de vida e sucessão para que a família mantenha capacidade de decisão justamente nos momentos em que ela é mais necessária.




