O termo virou padrão nas propostas comerciais e descreve, na prática, cinco serviços diferentes, com preços e prazos que não se parecem. Guilherme Friol, CEO da Vircos, explica por que a imprecisão de vocabulário atrapalha quem precisa comparar orçamentos
Um empresário que pede três orçamentos de inteligência artificial hoje tem boa chance de receber três propostas que dizem a mesma frase: vamos treinar uma IA para o seu negócio. Os preços, no entanto, podem variar bastante, e os prazos também. Diante disso, a conclusão natural é que alguém está cobrando caro demais ou barato demais.
Para Guilherme Friol, CEO da Vircos, empresa de engenharia de inteligência artificial corporativa, o mais provável é que ninguém esteja mentindo. As três propostas estão descrevendo serviços genuinamente diferentes com a mesma palavra, e a palavra escolhida é a única que o mercado aprendeu a usar.
1. O que treinar significa de verdade
Treinar um modelo de linguagem, no sentido técnico, é construir a inteligência a partir de grandes volumes de dados, um processo que exige infraestrutura de altíssimo custo e times de pesquisa. É o que fazem as empresas que produzem os modelos de fronteira. Nenhuma empresa média brasileira está fazendo isso, e não deveria: a comparação seria com competir em pesquisa contra companhias que investem bilhões por ano.
Existe uma variação intermediária, o ajuste fino, em que um modelo já pronto é refinado com dados específicos. É uma técnica real e usada em casos determinados, mas responde por uma fração pequena dos projetos corporativos. Quando um fornecedor diz que vai treinar a sua IA, nunca é disso que ele está falando.
2. Por que o mercado fala assim
A resposta, segundo Guilherme Friol, é comercial, não técnica. Dizer que vai treinar a IA do cliente é muito mais simples de vender do que descrever o que efetivamente será feito, que envolve termos como pipeline de recuperação de informação, indexação de documentos e reordenação de resultados.
“Marketing prefere simplicidade. Engenharia prefere precisão. Os dois raramente tomam café juntos”, afirma Guilherme Friol.
O atalho funciona para vender e atrapalha na hora de comparar. Como todas as propostas convergem para o mesmo verbo, o comprador perde o único critério objetivo que teria para entender por que uma custa o que custa.
3. O que está sendo vendido, na maioria das vezes
Guilherme Friol propõe substituir o termo genérico por cinco descrições que correspondem ao que realmente acontece nos projetos. Configurar a inteligência artificial, ajustando o comportamento e as instruções que ela segue. Personalizar, adaptando a linguagem e o formato das respostas à empresa. Especializar para um domínio, restringindo a atuação a um campo específico de conhecimento. Fornecer uma base de conhecimento, conectando a IA aos documentos, políticas e históricos da empresa. E criar um assistente especializado, que combina os itens anteriores em uma ferramenta com finalidade definida.
Cada um desses cinco serviços tem um esforço distinto. Configurar pode levar meses. Conectar uma base de conhecimento corporativa, tratar documentos, definir permissões de acesso e garantir que a resposta cite a fonte correta é um projeto de engenharia, com prazo e custo proporcionais.
4. Por que a imprecisão custa dinheiro
O primeiro custo é de comparação. Sem saber o que está sendo contratado, o empresário decide pelo preço, e o preço mais baixo costuma corresponder ao escopo mais raso. O segundo custo é de expectativa: quem contrata acreditando que a IA vai aprender sozinha com o uso descobre depois que o sistema faz exatamente o que foi configurado para fazer, e nada além disso.
O terceiro custo é o mais silencioso. Quando o projeto entrega menos do que a palavra prometia, a leitura interna costuma ser a de que a tecnologia não funciona para aquele negócio, e a empresa adia a próxima tentativa por um ou dois anos. O problema não estava na tecnologia, estava no que foi combinado.
5. Três perguntas que revelam o escopo real
Guilherme Friol sugere três perguntas para qualquer proposta que use o verbo treinar. A primeira: quais dados da minha empresa a solução vai acessar, e como eles serão tratados. A segunda: quando a resposta estiver errada, o que exatamente eu preciso ajustar, e quem faz esse ajuste. A terceira: se eu quiser levar isso para outro fornecedor daqui a dois anos, o que sai comigo.
As respostas costumam separar rapidamente os cinco tipos de serviço. Uma proposta que não consegue detalhar quais documentos serão indexados provavelmente está vendendo configuração. Uma que não sabe dizer quem ajusta o comportamento em produção provavelmente não pensou na operação.
Exigir precisão de vocabulário não é preciosismo técnico. É a forma mais simples de recuperar o poder de comparar propostas, que é justamente o que o termo guarda-chuva retirou do comprador. Enquanto todas as ofertas do mercado couberem na mesma frase, quem contrata está escolhendo no escuro.




